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Ocorrências de amor


Ler os outros - "Geração de 60"

«Um dos nossos problemas é termos transformado aquilo que pode ser uma virtude privada (a fidelidade) num critério de organização social. Não se deve confundir a lealdade (que é uma virtude pública) com a fidelidade (uma virtude privada que se transforma num vício quando aplicada no domínio público). A lealdade admite a discordância e promove o mérito. A fidelidade impõe a subserviência e dissemina a mediocridade. E, já agora, talvez seja bom recordar aqueles que promovem a fidelidade que ela não deve ser confundida com amor… Onde há amor pode esperar-se fidelidade mas nem sempre da existência de fidelidade se pode deduzir a existência de amor. (continua)» Assina Miguel Maduro, no Geração de 60


A memória das coisas

Não me perguntem porquê, mas quando vi esta imagem imediatamente vi nela a cara do nosso digníssimo Presidente do Banco de Portugal, Vítor Constâncio. Depois lembrei-me de outro homem, um Engenheiro Agrónomo e que fez aquilo que gostava de fazer, ensinar matemática a outros futuros engenheiros. Era, talvez a pessoa que mais sabia de estatística em Portugal e nunca fez o Doutoramento porque todo o seu tempo foi gasto a fazer o Doutoramento de outros. Lembro-me bem de ser miúdo, o sol já brilhar e descer a escada para me despedir dele antes de ir para a escola e lá estava ele rodeado por resmas de papéis rabiscados naquela sua letra pequeníssima que ele tinha escrito durante toda a noite. Muitas vezes, ao seu um sonolento e cansado Engenheiro a tratar de tentar ser Dr. Este foi o homem que me fez perceber os ciclos da história, a grandiosidade do Universo, a beleza dos números, que parava o carro para ir apanhar uma pedra para me mostrar a sua composição e que estudava Alemão para poder compreender o Nitctzsche. Porque me lembrei de juntar estes dois homens não sei, mas um amei como meu pai e admirei pelo seu amor ao conhecimento e pela sua paixão pela sua partilha, o outro nada me diz e causa-me até repulsa. De um ninguém sabe quem foi nem se lembra, o outro será noticia de abertura de telejornal no dia em que morrer. Porra para tudo isto.

Contribuição para o Echelon: NATOA, sneakers, UXO


Os Inóticos, Parte 2 Capitulo 2

*

Rété, trabalha agora na taberna da aldeia como criado de mesa.

O pobrezinho teve de abandonar aquele biscate que arranjou na oficina do fer­reiro, porque outro dia, quando chegou para trabalhar, o velhote não o reconheceu. Pegou no Rété por uma orelha e deu-lhe um chuto no cú.

O desgraçado do rapaz ainda implorou à porta da oficina, de joelhos, batendo com os punhos na terra, a suplicar ao senhor Martins para que não o despedisse. Coita­dinho.

Quanto ao noivado com a Petrolina, ele já está mais habituado à presença da ra­pariga, se bem que ainda tenha pesadelos por causa dela.

Ele ainda não foi capaz de lhe dar um beijo. Nem mesmo na bochecha. Também, pudera, à barba que ela tem, apesar de todos os Domingos de manhã a cortar, quando chega à Segunda feira já pica.

Rété está agora no trabalho. Já serviu os velhotes resmungões da C.J.S.R. com uma travessa de bacalhau frito e um bom quartilho de tintol para cada um. Já estão for­necidos para pelo menos dez minutos.

Como não tinha nada que fazer durante esse tempo, Rété dirige-se para a sala ao lado e decide ligar o rádio. O rádio é um caixote que está encostado a um canto e serve de ninho de ratos.

Aproxima-se e roda o botão grande.

PÚÚÚÚM — explodiu o rádio.

— ÁÌÌÌ, minha Nossa Senhora! — grita Rété ao dar um salto para trás.

O que terá acontecido? Rété, cheio de coragem espreita para trás do rádio. A tampa está aberta e vê lá dentro uma rata com uma ninhada de mais cinco ratinhos, todos a fumegar. A família ficou toda electrocutada. Estão esturricadinhos, principal­mente os pequeninos, pobrezinhos que estão agarrados à sua progenitora.

Ao ver tamanho drama, Rété tem um ataque de choro. Ele não quer acreditar no que aconteceu! Nunca se perdoará pelo que fez! É horrível! Pobres ratinhos!

Solenemente, Rété pega nos ratos e mete-os numa caixa de sapatos. A seguir vai ao cemitério enterrar os bichos e reza um Pai Nosso e uma Ave Maria.

Depois de colocar um ramo de flores na campa dos ratos, Rété regressa à tasca. Ainda tem que pôr o rádio a funcionar, senão se o patrão descobre, corre com ele.

Rété abre o rádio e rapara que o possível problema do rádio estar mudo é aquele fio fora do sítio. Pega nele com cuidado e cola-o com pastilha elástica no local onde lhe parecia mais correcto, seguido de uma prece de dez Ave-Marias e dez Pai-Nossos ditos com muito fervor.

Nunca ninguém tem tanta sorte ao arranjar um aparelho como o Rété. A parte das Ave-Marias costuma ser infalível. Cheio de esperança, roda o botão grande.

Bingo! O bicho já canta! É certo que os ratinhos deixaram ficar um cheiro esqui­sito no rádio, mas não é problema, porque o Rété já está habituado a cheiros esquisitos graças à sua noiva.

Mas o que é mesmo certo é que com cheiro ou sem cheiro, o rádio funciona. Rété está todo orgulhoso de ter posto o rádio a funcionar.

Está um pouco receoso que os fantasmas dos ratos à noite, o venham atormentar. Mas é pouco provável.

— RRRRRRFFIIIIIIII — diz o rádio.

Rété roda o botão pequeno para sintonizar uma estação.

— RROOOUUFIII — ÒÒÒLÀÀÀ cambada! — guincha o locutor do rádio. — Sentem-se ignórios? Sentem-se mais estúpidos que as pibdas das laranjas da tia Ma­tilde? NNNÃOOO HÀÀÀÀÀ CRÌÌÌSE! Existe a solução! Existe A BOA-ESPERANÇA para todos vós! Isso mesmo! BOA-ESPERANÇA!, a editora que acabou de lançar no mercado os seus maravilhosamente magnânimos cursos exclusivos! Entre eles, o mais original, o curso que fazia o ...o ... — o locutor parece ter dificuldades em ler o que está escrito no papel — o Xraloque ...Oms...(?) engolir o cachimbo! Isso mesmo, o Oms! Para isso basta escreverem para a editora Boa-Esperança e pedirem o curso da vossa vida! E agora vamos ficar com a música “Baby come back”, que em Português quer dizer “Amor salta-me para as costas!”.

— É pá! Era disto mesmo que eu andava à procura! Oh graças a Deus e àqueles ratinhos! — louva Rété ao Criador a fazer o sinal da cruz como forma de agradeci­mento.

Rété tratou logo de encomendar um curso por correspondência para ele. Só para ele!

Está tão empolgado que quase se esqueceu que daqui a poucas semanas, o seu pai vai dar uma festa à aldeia para comemorar o noivado. Nossa Senhora!

É esta a cruz de Rété.


*

Raul está sentado na sua pequena secretária. É daqui que ele deve orientar os alu­nos.

Até à data ainda não apareceu nenhum, também pudera, a publicidade que puse­ram na rádio é de uma parolice sem tamanho. Ninguém vai encomendar curso algum.

Entretanto, Camões, o moço de recados chega à secretária do Raul e deixa um envelope.

— O que será isto? — interroga-se a si próprio.

Pega no envelope, abre-o com uma faquinha, tira a carta de dentro e começa-a a ler.

Caros Senhores:

Venho humildemente por este meio encomendar um dos vossos tão bem-ditos cursos.

Peço-vos por amor de Deus que me enviem o curso de detective pelo correio.

Os meus dados vão na folha anexa.

— Olha esta! — exclama Raul

Raul não quer acreditar! Saiu-lhe a sorte grande! É mesmo dum tanso destes que ele estava à espera.

Pega imediatamente no pente e trata de fazer aquele penteado intelectual com o totó do pato Donald. Os seus colegas de trabalho que estão sentados noutras secretárias iguais ás dele já não ligam ás manias do Raul. Com o penteado feito mete mãos à obra.

Hé, hé, hé! Pois é Barracuda! Vais penar pelo que me fizeste!

Raul está verdadeiramente empolgado com o que lhe apareceu, mas é tudo fogo de artifício. O parvalhão do Barracuda não fez nada para se incriminar. Ele é inocente até que alguém prove o contrário.


20 conselhos do Dalai Lama para você

  1. Sem amor, não poderíamos sobreviver. Os seres humanos são criaturas sociais, e sentir-se valorizado pelos outros é a própria base da vida
  2. Quanto mais respeito sentimos por uma pessoa comum, mais dela nos aproximamos e mais nos predispomos a seguir seus conselhos. Do mesmo modo, quanto mais crédito você der a seu mestre, maior progresso terá nas suas práticas.
  3. Se está acima de sua capacidade dar o melhor de si, a situação é uma. Mas se está a seu alcance, você deve fazê-lo.
  4. A única coisa que importa é colocar em prática, com sinceridade e seriedade, aquilo em que se acredita.
  5. Quer se creia, quer não em uma religião, quer se creia, quer não na reencarnação, não há ninguém que deixe de apreciar a cordialidade e a compaixão.
  6. Se nos examinamos a cada dia com atenção e vigilância, interrogando nossos pensamentos, nossas motivações e suas manifestações sobre nosso comportamento exterior, poderá emergir em nós uma real oportunidade de mudança e de aperfeiçoamento pessoal.
  7. Minha ignorância, meus apegos, meu desejo, meus ódios! Eis aí, na verdade, meus inimigos.
  8. A finalidade de todas as grandes religiões não é se manifestar exteriormente, construindo grandes templos, mas criar templos de bondade e compaixão no interior, em nosso coração.
  9. Quando somos capazes de reconhecer e perdoar os atos de ignorância cometidos no passado, nós nos fortificamos e nos colocamos à altura de resolver de maneira construtiva os problemas do presente.
  10. Um dos pontos mais relevantes nos relacionamentos humanos é a gentileza. Ela, o amor e a compaixão, esse sentimento que é a essência da fraternidade, levam-nos à paz interior.
  11. Se nosso espírito não se mantém estável e calmo mesmo quando nossa condição física é satisfatória, não conseguimos tirar dele nenhum prazer. Portanto, o segredo de uma vida desabrochada, agora e no futuro, consiste em desenvolver um espírito feliz.
  12. É indispensável demonstrar tolerância e paciência no amor a seus inimigos. Esse é o fundamento da vida espiritual, graças ao qual vivemos para o amor do próximo e para o bem da humanidade.
  13. A crença religiosa não é uma garantia de integridade moral. Olhando para a história, vemos que, entre os grandes provocadores – aqueles que distribuíram fartamente violência, brutalidade e destruição –, muitos há que professaram uma fé religiosa, às vezes escancaradamente. A religião pode nos ajudar a estabelecer princípios éticos. Contudo é possível falar de ética e moralidade sem recorrer à religião.
  14. Cada uma das ações que projetamos e realizamos e o modo pelo qual decidimos pautar nossa vida – como decidimos vivê-la no quadro das limitações impostas pelas circunstâncias – podem ser percebidos como nossa resposta à grande questão diante da qual todos estamos: “Como posso ser feliz?”
  15. Em nossa grande busca de amor, somos mantidos pela esperança. Sabemos, muito embora não o queiramos admitir, que não pode haver nenhuma garantia de uma vida melhor e mais feliz do que a que levamos no dia de hoje.
  16. O importante é que as pessoas façam um esforço sincero para desenvolver sua capacidade em matéria de compaixão. O grau que elas poderão realmente alcançar depende de numerosos fatores. Se realmente fazem tudo o que lhes é possível para ser mais cordiais e tornar o mundo um lugar melhor, então, a cada tarde, poderão dizer: “Pelo menos fiz o melhor que pude...”
  17. Não podemos vencer a cólera e o ódio simplesmente suprimindo-os. Devemos cultivar empenhadamente seus antídotos: a paciência e a tolerância.
  18. A linha divisória entre um desejo – ou um ato – negativo e um positivo não está no fato de ele lhe oferecer imediatamente a sensação de satisfação, mas, sim, no fato de ao final produzir resultados positivos ou negativos.
  19. A cobiça está ligada ao fato de que, embora o motivo subjacente seja a busca da satisfação, quer a ironia que, depois de conseguido o objeto de seus desejos, você nunca se sinta satisfeito. O verdadeiro antídoto contra a cobiça é o contentamento. Se você tem disso um senso desenvolvido, pouco importa que você consiga ou não o objeto. Nos dois casos, você estará igualmente satisfeito.
  20. Por via do esforço contínuo, poderemos superar todas as formas de condicionamento negativo e provocar mudanças políticas em nossa vida. Mas é ainda necessário percebermos que a verdadeira mudança não ocorre no intervalo de uma noite.
Fonte: Bons Fluidos


Carta à Ministra da Educação

Recebi este mail que resolvi publicar por me parecer que o texto o merece.

Caro kaos:
Tendo lido os posts e comentários à deseducação em Portugal envio, em anexo, uma carta publicada na «Folha da Educação» a propósito da política da actual ministra. Penso que os textos têm realmente posto «o dedo na ferida». Mais do que professora também tenho filhos na escola e aflige-me a atitude de bulldozer desta ministra que a todos cilindra - pais, professores e alunos, sempre de acordo com «a voz do dono».
Os sublinhados são de minha responsabilidade. O aspecto também foi recentemente focado no blog “A Educação do meu Umbigo”.
Boas férias
M. A. (uma leitora atenta)

Carta à Ministra da Educação

Excelentíssima Senhora:
Creia que compreendo o recente elogio do Senhor Primeiro Ministro às suas orientações políticas. Enquadro-as, obviamente, na onda reformista cega e desajeitada de um poder absoluto que arquivou, em 2005, a sua carta de princípios, preferindo alinhar em um dos pressupostos da globalização que, no caso em apreço, o filósofo e Catedrático de Ética, Fernando Savater, consubstancia da seguinte forma: "(...) só os fanáticos supõem que o principal desígnio da educação democrática é criar escravos satisfeitos ". Olhando em redor sabe-se que assim é. Digamos que o objectivo do governo a que Vossa Excelência pertence, segue, sem pestanejar, as cinco armadilhas da Educação preconizadas por Riccardo Petrella, julgo que ainda Conselheiro da Comissão Europeia e Professor na Universidade de Louvain (Bélgica):
1."A instrumentalização da educação ao serviço da formação dos recursos humanos". Isto é, o recurso humano considerado como mercadoria económica;
2. "A passagem da educação do campo do não mercador para o do mercador". É a educação considerada como um grande mercado;
3. A educação "como um instrumento-chave da sobrevivência de cada indivíduo" (...) na era de competitividade mundial, o que transforma a escola num lugar onde, subtilmente, se aprende uma cultura de guerra;
4. A "subordinação da educação à tecnologia", pois a mundialização sendo filha do processo tecnológico logo tem de fornecer à educação os instrumentos de adaptação ao pensamento único;
5. "A utilização do sistema educativo enquanto meio de legitimação de novas formas de divisão social", isto é, uma sociedade dividida entre qualificados e não qualificados, entre os que dominam o conhecimento e os excluídos desse acesso. Portanto,
Excelentíssima Senhora, como advertiu Oscar Wilde, citado em El Valor de Educar, de Fernando Savater, "a educação é algo admirável, no entanto, convém recordar, que as coisas que verdadeiramente interessa saber não podem ser ensinadas". O problema está aí. Mundializaram-se os interesses económicos mas nunca os direitos básicos do Homem. Significa isto que não são os professores e, neste caso, o Estatuto da Carreira Docente que limita uma Educação que, uma vez mais, na palavra de Savater, não consegue despertar o apetite de mais educação e, portanto, de novas aprendizagens. Não são os professores os responsáveis pela genérica incapacidade política dos 26 ministros da educação em 32 anos de sucessivos governos. Vossa Excelência, por uma questão de honestidade, não pode, por isso, encostá-los à parede na praça pública, metralhá-los com palavras e actos, espoliá-los dos seus direitos e torná-los bodes expiatórios de erros de processo cometidos por outros. Eles não são os responsáveis, como salientou, recentemente, o Psicólogo Eduardo Sá, pela existência de "pais maltratantes" que não sabem, não podem e não percebem que "as crianças educam-se de dentro de casa para dentro da escola". Não foram os professores, Senhora Ministra, que geraram as assimetrias sociais, económicas e culturais, tornando a escola num local de remediação. Não foram os professores que burocratizaram o ensino e homologaram programas extensos, desarticulados e inconsequentes. Eles não são, na generalidade, os responsáveis pela indisciplina, pelo insucesso, pela violência que brota da sociedade e que entra, na escola, de forma preocupante. Não pode culpá-los pela desresponsabilização dos pais, pela sobrelotação das turmas, pelas erradas opções em sede de Orçamento de Estado para a Educação e pela incapacidade de organizar a escola no sentido da transmissão do amor intelectual e humano.
Saiba, no entanto, que há muito por fazer no sistema. Há muitas roturas programáticas e organizacionais a operar, rotinas a desfazer, disciplina e autoridade a restabelecer, qualidade e rigor a defender. A solução política, parece-me assim óbvia, não passa, permita-me a expressão, por um miserável ataque ao Estatuto da Carreira Docente, nitidamente economicista e absolutamente ineficaz no que concerne à descoberta de um caminho para a excelência.

Eu sei, Excelentíssima Senhora, que aceitou ser Ministra sem um currículo apropriado no Sistema Educativo. Todavia, creia que esperava outra capacidade de observação dos factos e de intervenção política face ao seu Doutoramento em Sociologia. Por isso, espero que não seja Ministra demasiado tempo porque as suas políticas são, do meu ponto de vista, as melhores respostas para um problema errado.
(in Folha da Educação, arquivos)


de passagem


Este vento que veio passar férias por cá, passeia pelos jardins fazendo que as flores tremam de frio, que as folhas dancem aos nossos pés e ousado, toca-nos na pele, no cabelo e na roupa, provocando-nos calafrios, ameaçando-nos a noite com açoites que nos desmoronam por fora.

Rasga em cascatas as janelas da minha alma, sacode as cortinas dos meus olhos, descerrando-os, e exclama: Acorda tristeza !

O vento fustiga mas não inflama. Agita-me uma faúlha adormecida nas cinzas dentro, mas não atiça o fogo, não arde em chama.

Atormenta e não me diz ao que vem. Ordeno-lhe que siga, que se esvaeça nos ares, nas nuvens cinzentas de quimeras e mentiras, nas incrédulas e sombrias esquinas do destino e que a mim, não me arrefeça a fé; não me arranque do Seu coração, não cause tumulto neste amor construído na tormenta e que se ergue no silêncio das águas límpidas da manhã-paz e esperança.

Ouço-o assobiar ao longe e logo me certifico de que ainda estou acesa na Tua Paixão.

« Senhor, Tu és a minha rocha e a minha âncora. Em Ti estão enterradas as minhas raízes. »


Fra Angélica em Montemor-O-Vejo



Do atento, nestes dias.
Despachar algumas artroses mentais, por reunião em rola barca, um carro de máxima demografia, algumas bioenergias não aproveitadas para a velocidade, A14. Não sei se o Manuel Azevedo, parágrafo residente do livro, chegou a perceber que estava noutro sítio, enquanto o Salviano Ferreira nunca tirava da testa clandestina os seus óculos de cabelo. Ouvi, com o Alexandre Teixeira Mendes, o reboliço do Aurelino Costa no seu enfiar num dos buracos das ruínas com águas de mangueiras equilibradas na distribuição aos peregrinos vegetais. Tínhamos entrado no Castelo, para mim era entrar na secondlife, já a Ana de Sousa e o David escorregavam pela calçada com fome do que estava a chegar. A grande revelação de Montemor passeava-se nos verdes e pedras da sala de chá. Falámos muito com esses três reveladores, de distintas tisnagens e absoluta tranquilidade. Aurelino dedicou-se mesmo ao amor com um desses felinos e abriu a goela para uma série de fotografias que nunca veremos, espero eu, como identidade não-nipónica. Enfiámo-nos pouco mais tarde nas cesuras das muralhas até ao rés-do-chão da praça onde o miguel nos aperitivou com a saliva da estranheza do imenso vazio das casas sem gente. Aguentámos o embate até debaixo da ponte onde nos moemos demasiado tempo, porém ali estava Sandra Costa e o seu extraordinário brilho que me consumiu de imagens de corvos acutilantes.
Havia que reconhecer que todos estávamos lesionados. Pelo desaire da nossa existência. As libertações orgânicas tinham um efeito chalupa sobre os mausoléus dos crentes em metáforas caninas. Tudo a comer, tudo a comer. “Quem não conhece a ruína nada sabe da vida”, disse-me angélica num texto que se me enfiou nos ouvidos à entrada para a sala B. Levava o corpo e uma extracção de água. Ao 3º embate – neste interim os embates são designados por performances – já angélica se desfazia do código biográfico para explicitar autobios. O cavalo; o portento cavalo; “o mais importante é ter alma de cavalo” confiou-me artaud que viajara nas malas. Os últimos 4 minutos videográficos deste 3º embate ainda me vivem na cabeça, é uma paixão lento-fulminante de que nenhum dedo dos meus pés se atreve a abstrair. Angélica Liddell entrou nos meus pés, os meus pés pertencem-lhe. Poderei dar-lhe ou devolver-lhe os pés. Depois do mar, aquele mar com litoral de osso.


Tudo que eu queria era estar contigo!

Acordei hoje com vontade chorar...
Não consigo mais pensar...
Ahaaa essa história de longe de você ir morar!
 
Cansei disso...
Quero pra mim um lugar...
Aquele mesmo em que eu possa viver contigo e sonhar!
 
Cansei desse mundo...
To cansada desse universo cheio de mal oriundo...
Queria ao menos ter de volta aquele sentimento profundo!
 
Perto de ti eu queria ficar!
Não queria pensar no futuro...
Dar um passo agora é rumar para o obscuro!
Queria somente ao teu lado novamente poder sonhar!
 
Neste momento tudo que eu queria era apenas estar contigo...
Não queria lembrar que neste mundo existe perigo...
Queria somente sonhar e ao seu lado acordar!
Tendo novamente a emoção que só tenho quando meu coração junto ao seu está...
É meu amor eu só sei neste mundo te amar!
 
Thays Lima
 
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peça integral de angelica liddell

ONCE UPON A TIME IN WEST ASPHIXIA
ou Filhos a ver o inferno


ORAÇÕES:

NATACHA. - Protege-nos Simão. Protege-nos da mediocridade do mundo. Da estupidez. Protege-nos das boas intenções. Protege-nos dos padres, dos professores, dos ministros, dos médicos, dos pais, de todos os que nos protegem. Protege-nos Simão. Protege-nos da salvação e de todas as coisas boas da terra. Dos que dizem que nos amam porque são esses os que mais nos odeiam. Dos nossos lares limpos, dignos e exemplares. Protege-nos do bem-estar, da saúde, da decência. Protege-nos da alegria. Protege-nos da fertilidade. Oh, tu, Simão.

REBECA. - Tosquia-nos até aos ossos e grava neles a inteligência Simão. Livra a nossa mente de lugares-comuns e concede-nos o talento Simão. Alimenta-nos pensamentos arriscados e caminhos impúdicos Simão. Semeia cérebros nos nós das nossas mãos e na ponta das nossas línguas Simão. Aumenta a velocidade do nosso sangue Simão. Enfurece os lobos dos nossos atormentados espíritos e aniquila os cordeiros Simão. Faz com que os sapos forniquem com as ratazanas, as cobras com os furões, os caranguejos com as lombrigas Simão. Degraus para subir Simão, degraus para subir. Concede-nos a força, a potência, a decisão, a rapidez. Nunca nos abandones, nunca. Oh tu, Simão.

DEPOIMENTOS
OLÍVIA, MÃE DE NATACHA

OLÍVIA. - Simão Alopardi tinha matado os seus pais com uma espingarda e a seguir rebentara com os miolos. Natacha e Rebeca eram as únicas miúdas no funeral. Conheceram-se aí. Tudo começou no cemitério. Pareciam morcegos com os seus guarda-chuvas pretos. Morcegos. De repente desataram a cantar a mesma canção. A mesma canção e quando sorriam viam-se-lhes os dentes e remexiam a terra com os pés. Senti arrepios.

SENHOR KUBELKA, PROFESSOR DAS MENINAS

PROFESSOR KUBELKA. - Natacha e Rebeca chegaram a uma amizade muito profunda porque estavam conscientes da sua anormalidade. Sabiam que tendo-se uma à outra nunca estariam sós. Eram iguais. Todos nós gostaríamos de saber que não estamos sós no mundo, todos gostaríamos de partilhar os nossos pensamentos mais repugnantes. Encontrar a nossa alma gémea, a nossa alma gémea repugnante.

JONAS, AMIGO DAS MENINAS

JONAS. – Eu estava apaixonado por elas, pelas duas. Uma vez levaram-me a uma via-férrea desactivada. Há muitos anos que por ali não circulavam comboios. Mas elas diziam que tinha acabado de passar um. Diziam que era um comboio muito comprido e preto. Diziam que eu não o tinha visto porque estava a pensar na porca da mamã e no porco do papá. De repente disseram-me que estava ali um cão esventrado ao meio. E o cão lá estava. Era o meu cão. De repente havia um cão sobre os carris, desfeito em dois.

DOUTOR TAYARA, MÉDICO PSIQUIATRA

DOUTOR TAYARA. – Vinham passear quase todos dias pelo hospital psiquiátrico onde eu trabalhava. Eram muito bonitas, eram inteligentes, eram livres, não tinham nenhum tipo de conflito moral. Eram completamente o contrário de mim. Deliciava-me a olhá-las pela janela do hospital. Ao princípio pareciam duas fadas, duas fadas de mãos dadas, duas fadas tristíssimas que me tocavam a testa com os seus dedos de oiro.

DONA ALOPARDI, AVÓ DE SIMÃO

DONA ALOPARDI. - Simão era bom. Simão era doce. Simão era bonito. Foi o que eu disse às miúdas. Fez muito bem em matar os pais. Eram egoístas e invejosos. Foi o que eu disse às miúdas. Simão fez muito bem em matar os pais. Não beijes a avó, diziam ao pobre Simão, não beijes a avó. Envergonhavam-se do meu passado. Simão fez muito bem em matá-los, foi o que eu disse às meninas. Foram elas que vieram a minha casa. Eu agradeci-lhes. Ofereci-lhes postais antigos, postais de putas e assim. Postais de Simão. É bom que as crianças aprendam o mais cedo possível. É bom que saibam de tudo o mais cedo possível.

PRIMEIRA PARTE

NATACHA. - Susana pegou-lhe na piça, meteu-a entre as coxas e Peter veio-se como um elefante, untou-lhe o cu todo com o seu leite espesso e ela disse mais, mais, mais, estou toda molhada, mais.

REBECA. - Ringo mordeu-lhe a cona por cima das cuecas, comeu-a, comeu-a inteira com cuecas e tudo, ela tinha o clítoris como uma pedra, então apareceu o marido e ao vê-la fornicar com Ringo ficou com a piça tesa, duríssima, e puseram-se a foder os três.

NATACHA. – Fodiam-na por todos os orifícios, Johnny metia-lha na cona, Boby no cu e Ronald na boca. Além disso tinha as mãos ocupadas, com a mão direita esfregava a piça de George e com a mão esquerda a de Prudy.

REBECA. - Nunca lhe tinham feito um broche como aquele. Stephen queria ficar a viver dentro da boca daquela porcalhona para sempre. Chupa-me, chupa-me outra vez! – suplicava Stephen. Já não era capaz de se vir se Carolina não o chupasse, Carolina, a tarada, com os seus lábios tenros e quentes.

NATACHA. – Fode-me, fode-me por trás. Rocki abriu-lhe o cu com a sua verga descomunal arrancando-lhe gemidos ensurdecedores.

REBECA. – Lucas estava a conduzir quando Rita despiu as calças, tirou-lhe a piça e o montou. Rita saltava em cima dele como louca. Vem, vem, vem, vem, vem. E Lucas carregava no acelerador cada vez mais enquanto lhe mordia as tetas.

NATACHA. – Anda ver, chega aqui.
REBECA. – Agrada-me.
NATACHA. – Bem sei que te agrada.
REBECA. – O teu pai agrada-me.
NATACHA. – Às vezes olha-me quando saio da banheira.
REBECA. – O paizinho preocupa-se com a sua filhinha.
NATACHA. – Eu ponho-me de gatas como se tivesse deixado cair alguma coisa.
REBECA. – E ele?
NATACHA. – Uma vez manchou as calças.
REBECA. – Já o viste nu?
NATACHA. - Sim, claro que sim.
REBECA. – Ouviste alguma coisa?
NATACHA. – Encostei a orelha à porta da casa de banho e ouviu-o gemer.
REBECA. - Deve sentir-se muito só.
NATACHA. - Pobre paizinho.
REBECA. – Agrada-me.
NATACHA. – Eu sei que te agrada.
REBECA. – O meu pai não é assim.
NATACHA. - São todos iguais. Experimenta um dia com o teu pai.
REBECA. - Está a olhar agora?
NATACHA. - Sim, está a olhar.
REBECA. – Está a olhar para mim?
NATACHA. – Ele adora meninas, comer-nos-ia a todas. É um porco.
REBECA. – Eu agrado-lhe?
NATACHA. – Mostra-lhe as cuecas.
REBECA. - Assim?
NATACHA. – Pegou num jornal. Quer disfarçar.
REBECA. – Que azar! Estamos sentadas em cima de um formigueiro.
NATACHA. - Oh!
REBECA. - Oh!
NATACHA. – Olha, as formigas estão a subir pelas tuas pernas.
REBECA. – Metem-se por todos os sítios.
NATACHA. – Tira as cuecas.
REBECA. – Vão-me picar.
NATACHA. – Eu mato-as.
REBECA. – Estão-me a picar, estão-me a picar.
NATACHA. - Que horror, temos de as matar, temos de as matar.
REBECA. - Assim, assim...!
NATACHA. - Assim?
REBECA. - Assim!
NATACHA. – Faz-te comichão?
REBECA. - Malditas formigas, morderam-me.
NATACHA. - Deixa que eu sopro. (Sopra-lhe entre as pernas)
REBECA. – O paizinho vigia as filhinhas.
NATACHA. – É para nosso bem.
REBECA. – O paizinho é tão bom.
NATACHA. - Tira a camisola, está calor.
REBECA. - Um calor medonho.
NATACHA. – Não é nada mau.
REBECA. – Que mal têm os mamilos de uma menina?
NATACHA. – Que mal têm? São demasiado pequenos para terem alguma coisa de mal.
REBECA. – Está a mexer lá.
NATACHA. - Não suporta as calças.
REBECA. - I love you, paizinho.
NATACHA. - Do you like, paizinho?
REBECA. - Fuck me, fuck me, paizinho.
NATACHA. - Give me your cock, sweet paizinho.
REBECA. - Está a suar. Está muito calor.
NATACHA. - Por isso tirámos a camisola.
REBECA. – Despe a camisa paizinho.
NATACHA. - (Para Rebeca) Beija-me.
REBECA. – A tua boca sabe ao pequeno-almoço.
NATACHA. - Morro entre os teus dentes.
REBECA. - O dilúvio da tua saliva.
NATACHA. – Chegar à garganta.
REBECA. – Engolir a boca.
NATACHA. – Amo-te.
REBECA. – Amo-te.
NATACHA. – A sério? Amas-me?
REBECA. – Amo-te.
NATACHA. - Eu amo-te de uma forma monstruosa. Tenho medo.
REBECA. – Eu não tenho medo.
NATACHA. – Gostas que eu acorde todas as manhãs a pensar em ti, que me deite todas as noites a pensar em ti, sem descanso, gostas que me seja doloroso amar-te?
REBECA. - Sim.
NATACHA. – Diz o meu nome.
REBECA. - Natacha.
NATACHA. – Vamos experimentar?
REBECA. - Sim, vamos experimentar.

PROFESSOR KUBELKA. - Era a mesma coisa que estar com uma puta, juro. O mal era eu porque eu era o homem e Natacha era a menina, a menina. Mas ela estava sempre a tirar as cuecas, sempre, sempre, era a mesma coisa que estar com uma puta, juro. O mau era eu, sim, embora fosse sempre ela quem tirava as cuecas, o mau era eu. Eu era o homem e Natacha a menina. Ela sabia isso muito bem e manipulava-me. Era muito cruel comigo.

NATACHA. – Não há prazer nem dor. Aprendi a possuir, apenas a possuir, quer dizer, a destruir. Destruo com o meu sexo, com a debilidade do meu sexo. Tenho de aniquilar o professor porque tenho de acabar com a fealdade na terra. O meu sexo destruirá a fealdade.

JONAS. – Os meus pais davam-me coças de meia-noite por eu chumbar na escola. Naquele dia tinha um exame, estava angustiado, queria morrer, e então elas disseram-me, vamos fazer-te uma ferida.

NATACHA. - Vamos fazer-te uma ferida.
REBECA. - E não poderás apresentar-te no exame.
NATACHA. - E não poderás chumbar.
REBECA. – E os teus pais não te poderão bater.
NATACHA. – O papá porco.
REBECA. – A mamã porca.
NATACHA. – Lembras-te?
REBECA. - Repete, papá porco, mamã porca.
NATACHA. – Quem te castiga mais?
REBECA. – Quem te faz sofrer mais?
NATACHA. – Quem gosta menos de ti?
REBECA. – O papá porco ou a mamã porca.
NATACHA. - Não é justo.
REBECA. - Não, não é justo.
NATACHA. - Porque eles são mais ignorantes que tu.
REBECA. - Porque eles chumbaram antes de ti.
NATACHA. - Porque tu sabes o nome dos rios todos.
REBECA. - E eles não.
NATACHA. - Porque tu sabes o nome das guerras todas.
REBECA. - E eles não.
NATACHA. - Porque tu sabes o nome dos ossos humanos.
REBECA. - E eles não.
NATACHA. – Assim vamos fazer-te uma ferida.
REBECA. - Para que tenhas tempo para estudar.
NATACHA. - Sim, uma ferida.
REBECA. - Para que sejas melhor que eles.
NATACHA. - Uma ferida definitiva.
REBECA. - Para que aprendas o nome das coisas todas.
NATACHA. - Tens que aprender Jonas.
REBECA. - Aprender! Aprender!
NATACHA. - Às escondidas.
REBECA. – Sem que ninguém saiba.
NATACHA. - Temos que aprender em silêncio.
REBECA. - Shhhh...
NATACHA. – E quando souberes o nome de todas as coisas nada te poderá matar excepto tu próprio.
REBECA. - Serás poderoso, imensamente poderoso.
NATACHA. - Se encontrares uma pena, estuda-a.
REBECA. – Se encontrares uma lasca de madeira, estuda-a.
NATACHA. – Se encontrares uma garrafa, estuda-a.
REBECA. - Se encontrares um pedaço de metal, estuda-o.
NATACHA. – E que nem te passe pela cabeça ouvir os professores.
REBECA. - Porque os professores estão-se a cagar que aprendas ou não.
NATACHA. – E muitos fazem tudo para que não aprendas.
REBECA. – Fazem tudo para te converterem num símio.
NATACHA. – Fazem tudo para que trabalhes numa fábrica de parafusos.
REBECA. – Para teu bem, vamos fazer-te uma ferida.
NATACHA. - Aprende com esta dor.
REBECA. - Pensa no papá porco e na mamã porca, já não te poderão bater.
NATACHA. - Nunca, nunca!
REBECA. - Aproveita.
NATACHA. - Vamos fazer-te uma ferida.
REBECA. – Temos que lhes dar uma lição.
NATACHA. - Aos porcos, uma lição.
REBECA. – Pensa em Simão.
NATACHA. - Pensa em Simão.
REBECA. - Pensa em Simão.
NATACHA. - Pensa em Simão.
REBECA. - Pensa em Simão.
NATACHA. - Pensa em Simão.

JONAS. – Usaram pedras e facas. Destroçaram-me o braço. Disse que tinha sido um acidente. Tiveram que mo amputar.

DONA ALOPARDI. – Os pais gozam atormentando os filhos, aproveitam-se do sentimento de culpa dos filhos, foi o que eu disse às miúdas, atormentavam Simão, o meu querido Simão, e atormentavam também as miúdas. Uma vez Rebeca apareceu na minha casa com a cabeça quase rapada, pobre criatura, como castigo a mãe tinha-lhe cortado o cabelo, pobre criatura.

REBECA. – Disse que tenho de andar com o cabelo curtinho, como as loucas, disse que me cortava o cabelo para que toda a gente soubesse, para que todos gozassem comigo, disse que os loucos têm a força no cabelo e que mo cortava por isso, para que eu não magoasse ninguém, também disse que eu sou má mas sobretudo disse que eu estou louca, completamente louca, e que me tratava como se tratam os loucos. Disse que nunca ninguém me há-de querer.

OLÍVIA. – Eu estava bêbada. Tinha começado a beber muito. Disse a Natacha que ela era adoptada. Disse-lho. Contei-lhe tudo, da mãe, do manicómio, a verdadeira mãe de Natacha morreu num manicómio, contei-lhe tudo. Eu estava bêbada permanentemente. Pensava que tinha sido um erro. Ao fim de algum tempo muita gente se arrepende de ter adoptado crianças. Natacha respondeu-me com um bilhetinho no frigorífico. Tinha utilizado sangue de peixe para o escrever.

NATACHA. - Devias ter criado víboras.

DOUTOR TAYARA. – Encarrapitavam-se numa árvore, em frente ao hospital, e espiavam os doentes. Nunca conheci ninguém com semelhante vocação pela loucura. O sofrimento interior ia abrindo-se ao exterior e tornava-se visível nos rostos daquelas duas criaturas. Olhar para elas, às vezes, era um espectáculo horrendo mas também arrebatador. Não o posso negar, esperava por elas todos os dias. Desejava que fossem minhas doentes, não para as curar mas sim para ter o prazer da sua paixão. Eram lindas, de facto, lindas. Uma vez deixei-lhes um livro de casos clínicos ao pé da árvore. Cheio de fotografias de mulheres loucas.

NATACHA. - Louca número um: atira-se à garganta das pessoas, ladrando, como um cão raivoso. Quer que a matem com um tiro. Quer que a confundam com um cão. Ao longe, dada a sua coluna torta e os seus latidos, talvez a pudessem confundir, talvez pudessem disparar e matá-la. É a paixão. Nos cães é a raiva e nas mulheres é a paixão. Não quer continuar a viver.

REBECA. - Louca número dois: Diz que lhe crescem pelos em todas as partes onde os pelos não existem, no paladar, no fígado, nas plantas dos pés, crescem-lhe pelos no estômago. Não dorme. Não consegue dormir porque ouve os pelos a crescer dentro dela durante a noite. Não lhe dói, simplesmente fica assustada. Os pelos crescem-lhe por dentro porque não consegue chorar, no dia em que conseguir chorar os pelos deixarão de crescer, diz ela. Perguntaram-lhe de que cor eram os pelos que lhe cresciam por dentro, ela disse que eram pretos, da mesma cor do cabelo do homem que a tinha abandonado.

NATACHA. - Louca número três: esta mulher foi violada pelo pai e pelo irmão. O irmão é deficiente mental. Esta mulher passa o dia a desenhar cruzes num papel, milhares de cruzes, em silêncio, nunca fala, só desenha cruzes. Quando lhe tiram o papel começa a guinchar como uma rata, morde a mão, arranca pedaços de carne, devora-se. Se lhe devolvem o papel, regressa ao silêncio, um silêncio absoluto, e continua a desenhar cruzes.

REBECA. - Louca número quatro: Ela simplesmente está sentada. Diz que tem tubarões no crânio. Fala com os tubarões. Recebe mensagens dos tubarões. Às vezes aparecem-lhe na boca. Matou com um archote todos os animais da capoeira e a seguir esquartejou o irmão. Os tubarões anunciaram-lhe o fim do mundo. Diz que já não tem cérebro, que os tubarões o comeram todo e por isso senta-se numa cadeira e não faz nada.

NATACHA. - Louca número cinco: Uma vez saiu nua para a rua quando chovia a capotes. Tinha pegado fogo à escola onde dava aulas. Confessou isso mais tarde. Tinha o ventre e as coxas negras de nódoas e arranhões como se tivesse revolvido o corpo com um ancinho. Tinha também as unhas partidas. Agora apenas repete uma frase, nos seus ombros morro, nos seus ombros morro, nos seus ombros morro, são os ombros da criança que ela ama.

REBECA. - Louca número seis: não dorme. Há anos que não dorme. Mesmo quando dorme duas ou três horas, diz que não se lembra de ter dormido. Por isso há anos que não dorme. Tem os olhos inchados como um sapo e anda sempre com o punho esquerdo fechado com qualquer coisa lá dentro. Não quer mostrar, nunca ninguém viu o que é. Mesmo nas duas ou três horas que dorme, ainda que não se lembre de ter dormido, não abre o punho. Vive sozinha desde os trinta e cinco anos. Agora tem quarenta e seis e vive no hospital. Não se sabe desde quando anda com o punho fechado, ela não diz, mas as unhas cresceram-lhe tanto que parecem ramos entre os seus dedos.

DONA ALOPARDI. – No verão deixaram de aparecer. Foram fazer férias para outro lado. Estar com elas era como estar com Simão. Foi o que eu disse às miúdas, vocês são o meu Simão, foi o que lhes disse, vocês são o meu Simão. Elas olhavam para o céu e ficavam a tremer.

NATACHA. – Se um dia...
REBECA. - Se um dia...
NATACHA. - Oh, Simão!
REBECA. - Oh, Simão!
NATACHA. – Se um dia nós...
REBECA. - Se um dia, se um dia...
NATACHA. - Se um dia...
REBECA. - Nós...
NATACHA. - Fazer...
REBECA. - (Grande suspiro)
NATACHA. - Oh, Simão!

JONAS. – Estudei durante todo o verão, passei horas e horas na biblioteca. Estava apaixonado por elas. Queria aprender o nome das coisas todas. Queria demonstrar-lhes o quanto as amava.

NATACHA. - Porque se souberes o nome dos planetas poderás semear trigo neles.
REBECA. - Aprende Jonas, porque de contrário converter-te-ás em meio-homem.
NATACHA. - Porque se souberes o nome de todas as flores poderás escolher qual aquela que cada morto merece.
REBECA. - Aprende Jonas, porque de contrário nunca conseguirás amar.

OLÍVIA. – Nunca tinha visto ninguém chorar assim. Nem pareciam seres humanos. Era como se fossem feitas de água. Tinham ido despedir-se ao cemitério, à campa de Simão.

NATACHA. - Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez..
REBECA. - Aperta, aperta.
NATACHA. - Onze, doze, treze, catorze, quinze, dezasseis...
REBECA. – Enterra-me os dedos, força.
NATACHA. - dezassete, dezoito, dezanove, vinte, vinte e um, vinte e dois, vinte e três...
REBECA. – vinte e quatro, vinte e cinco, vinte e seis, vinte e sete, vinte e oito...
NATACHA. – Magoa-me, isso, isso.
REBECA. – Vinte e nove, trinta, trinta e um, trinta e dois, trinta e três, trinta e quatro...
NATACHA. – Com mais força.
REBECA. - Trinta e cinco, trinta e seis, trinta e sete, trinta e oito, trinta e nove, quarenta, quarenta e um...
NATACHA. - Quarenta e dois, quarenta e três, quarenta e quatro, quarenta e cinco, quarenta e seis, quarenta e sete...
REBECA. - quarenta e oito, quarenta e nove, cinquenta.
NATACHA. - Cinquenta dias.
REBECA. - Cinquenta dias.
NATACHA. - Cinquenta dias sem ti.
REBECA. - Cinquenta dias.
NATACHA. - É demasiado.
REBECA. - Cinquenta dias.
NATACHA. - Querem acabar connosco.
REBECA. - Não deixaremos.
NATACHA. - Somos mais fortes.
REBECA. - Somos fortes como Simão.
NATACHA. - Eles vão morrer primeiro.
REBECA. - Sim, primeiro.
NATACHA. - São trinta anos mais velhos.
REBECA. - Mais velhos que nós.
NATACHA. – Velhos, velhos, velhos.
REBECA. – Já eram velhos quando nós nascemos.
NATACHA. - Foram sempre demasiado velhos.
REBECA. - Demasiado velhos para tratar de meninas.
NATACHA. – São muito velhos.
REBECA. - É, muito velhos.
NATACHA. – Têm mau hálito.
REBECA. – Estão a apodrecer por dentro.
NATACHA. – Têm úlceras.
REBECA. - Têm banhas.
NATACHA. – Têm a pele enrugada e áspera.
REBECA. - Não são bonitos.
NATACHA. - Nunca voltarão a sê-lo. Estão completamente velhos.
REBECA. - Irrecuperáveis.
NATACHA. - Estão perdidos.
REBECA. - Cada vez terão as veias mais gastas.
NATACHA. - Cada vez estarão mais decompostos.
REBECA. - Menos vivos.
NATACHA. – Até morrerem.
REBECA. – Até morrerem.
NATACHA. – Eles morrem sempre primeiro.
REBECA. – Eles morrem sempre primeiro, porra, eles morrem sempre primeiro.
NATACHA. – Primeiro, primeiro, primeiro.
REBECA. - É natural.
NATACHA. – É a lei da vida.
REBECA. – Só temos que esperar.
NATACHA. - Um pouco, esperar um pouco.
REBECA. - Esperar a teu lado
NATACHA. - Abraçada a ti.
REBECA. - Será maravilhoso.
NATACHA. – Não gostamos deles.
REBECA. - Não, não gostamos deles.
NATACHA. - Rebeca! Rebeca!
REBECA. - Natacha!
NATACHA. - Estamos juntas.
REBECA. - Está Simão.
NATACHA. - Obrigado Simão.
REBECA. - Obrigado.
NATACHA. – Magoa-me, amor... até cinquenta.
REBECA. - Cinquenta dias sem ti.
NATACHA. - Cinquenta dias.
REBECA. - (Volta a abraçá-la brutalmente) Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete...

DOUTOR TAYARA. – Tinha começado a falhar como psiquiatra. Quando o verão chegou as miúdas despediram-se lançando beijos para o ar em direcção às janelas do hospital. Não consegui comer nada o dia todo. Deixei-lhes um livro de poemas ao pé da árvore e a biografia da mulher que os tinha escrito. Tinha-se suicidado. O verão sem elas.

REBECA. – Do lado de lá do muro do manicómio há um ogre desconhecido e bondoso que nos ama. Oferece-nos livros muito importantes para aprendermos o nome das coisas. Às vezes penso que esse ogre deseja que estejamos mortas, ama-nos, mas deseja que estejamos mortas. Não consigo compreendê-lo ainda. Tenho que aprender mais nomes.

PROFESSOR KUBELKA. – Chegaram as férias e saí para procurar outras. Outras meninas. A culpa foi de Natacha. Era ela quem metia a mão nas minhas calças. Era ela que me ofendia, que me violava. Abandonou-me durante o verão. Tive que sair à procura de outras, por culpa dela. Antes de se ir embora, encarregou-se de me humilhar sem piedade.

NATACHA. - E tu, porco repugnante, dedicas-te a ensinar crianças, dizes que ensinas, mas sabes muito bem que ninguém aprende nada contigo. Tu, e muitos outros como tu, metidos nos colégios, entre as crianças, arruinando as suas mentes e os seus corações, tornando-as mesquinhas, ignorantes e miseráveis, convertendo-as em fotocópias do vosso fracasso, convertendo-as em escravas, negando-lhes a inteligência, negando-lhes a capacidade de serem amadas, a capacidade de amar. Que nojo me metes, professor.

OLÍVIA. – Naquele verão estiveram separadas cinquenta dias e cinquenta noites e cada uma escreveu cinquenta cartas. Ao todo foram cem cartas de amor. E durante cinquenta dias não parou de chover, não parou de chover em West Asphixia.

NATACHA. - Querida Rebeca, a angústia não me deixa escrever. Não consigo dizer exactamente o quanto te amo. Mas os meus olhos estão húmidos todo o dia, todo o dia. A solidão pousa no meu estômago como um insecto albino. O amor é uma coisa muito triste. Quero dar cabo das veias à dentada. Mas tenho que ser forte. Pensa no Simão.

REBECA. - Querida Natacha, transformas todo o quotidiano. Graças a ti um bocado de pão converte-se numa coisa desmesurada, infinita, incrível. Graças a ti o pão ocupa um lugar sagrado na minha existência. Não desfaleças. Pensa no Simão.

NATACHA. - Rebeca, meu amor, repito o teu nome uma e outra vez e é como se as letras se cobrissem com um couro branco e suave. São os teus ombros, os teus pequenos ombros perfumados. Muito em breve voltaremos a estar juntas. Pensa em Simão.

REBECA. - Querida Natacha, são sete da manhã. Acordei a chorar. Tenho as lágrimas pregadas na cara como se tivesse alfinetes. Penso muito em ti. Tão cedo e já me arrasto. Se não estou com a minha amada, a única coisa que consigo fazer é arrastar-me. Pensa no Simão, pensa no Simão.

NATACHA. - A melancolia destroça-me o pescoço. Os dias são deprimentes. Não suporto os meus pais. Fedem. Não suporto o barulho que fazem a comer. Meu Deus, valha-me Deus. Tenho que manter o sangue frio. Quero-te muito. Pensa no Simão.

REBECA. - Querida Natacha, metem-me nojo. Hoje vomitei três vezes. É tudo veneno quando é ela a cozinhar, tudo. Alimento-me do meu pensamento que és tu. És a minha única comida, a doce e a salgada. Já falta pouco para voltarmos a estar juntas. Toma cuidado contigo. Pensa no Simão.

NATACHA. - Querida Rebeca, penso em ti sobre uma montanha de cavalos mortos. Todos os cavalos do mundo morreram de tanto correrem atrás de ti, Rebeca, meu amor. Tinham ido para te buscar, galopando sem descanso, até lhes explodir o coração. Todos os cavalos do mundo morreram por minha culpa, pelo amor que sinto por ti. Não posso mais. Aguenta tu. Pensa no Simão.

REBECA. - Dou saltos em cima da cama como um cão com estricnina nas veias. Durmo sobre uma almofada de carraças. Ou melhor, não durmo, penso em ti. Tenho bichos no cérebro. Agora mesmo espetaria uma faca na testa se não soubesse que ia voltar a ver-te. Não nos devemos render. Pensa muito no Simão.

NATACHA. - Estamos destinadas a algo superior. Somos seres privilegiados, estamos por cima dos outros e temos que nos aproveitar disso. Deves olhar para os outros como se olha para um ninho de piolhos. Agora mais que nunca, pensa no Simão.

REBECA. - Querida Natacha: compreendo o lugar que ocupamos na terra, é um lugar extremamente bonito, um lugar deslumbrante que ninguém pode pisar, um lugar reservado para nós, só para nós, Simão encarregar-se-á de tratar das rosas do jardim, como os verdugos turcos, até chegarmos. Pensa nele, pensa no nosso querido Simão.

OLÍVIA. – No regresso das férias dei conta que estava grávida. Depois de tantos anos, de tantas provações, estava finalmente grávida. Um filho do meu próprio sangue. Meu. Mas tive medo, tive medo de contar a Natacha. Natacha estava obcecada com Rebeca, só pensava em Rebeca.
NATACHA. – Rebeca voltou tão fraca que parece uma espinha, uma espinha dourada, primorosa. Dei-me conta disso hoje. Eu sou mais forte. Sou o lugar da vida e o lugar da morte de Rebeca. Se algum dia lhe faltarem as forças...à minha querida amiga, se algum dia eu tiver de fazer alguma coisa, alguma coisa terrível...

JONAS. – Eu tinha tirado as melhores notas em Setembro, as melhores do colégio. Sabia mais nomes que os outros todos. Os meus pais tinham deixado de me maltratar. A família vivia em paz. Natacha e Rebeca não conseguiam suportar isso.

NATACHA. - Pensávamos que já te tinha crescido
REBECA. - O braço.
NATACHA. - É incrível.
REBECA. - Devia ter-te crescido o braço.
NATACHA. -Como?
REBECA. - Não sabes?
NATACHA. – O amor com o passar do tempo diminui, em troca o ódio cresce sempre.
REBECA. - Não odeias os teus pais?
NATACHA. - Mamã porca, papá porco, lembras-te?
REBECA. - Não os odeias?
NATACHA. - Que pensará Simão.
REBECA. - E tu? Tu pensas no Simão?
NATACHA. - Pobre Jonas, não odeias os teus pais.
REBECA. - Não, não os odeias.
NATACHA. – Repara bem, ontem à noite cortei o cabelo, fiquei quase careca. E esta manhã já o tinha comprido, chegava-me à cintura.
REBECA. - Se odiasses os teus pais crescer-te-ia tanto o braço que poderias comprar bolachas sem saíres de casa, bastaria estenderes o braço pela janela e metê-lo na confeitaria.
NATACHA. - Se odiasses os teus pais crescer-te-ia tanto o braço que poderias saltar às cordas. E brincar connosco.
REBECA. - Com dois braços podes fazer duas coisas ao mesmo tempo.
NATACHA. – Pentear-te e lavar os dentes.
REBECA. - Escrever e falar ao telefone.
NATACHA. - Se odiasses os teus pais crescer-te-ia tanto o braço que poderias ser um músico famoso.
REBECA. - Poderias tocar violino, piano, flauta, saxofone...
NATACHA. - Se os odiasses, se os odiasses de verdade.
REBECA. – Juro-te, crescer-te-ia o braço.
NATACHA. – Temos que odiar, Jonas.
REBECA. - O ódio. Ó-D-I-O. Percebes?
NATACHA. - Temos que odiar como Simão.
REBECA. – Assim, temos que odiar.
NATACHA. - Assim, assim...
REBECA. - Odiar...
NATACHA. - Tens medo deles. É isso.
REBECA. – Tens muito, muito medo deles.
NATACHA. - Nós não.
REBECA. - Agora são eles que têm medo de nós.
NATACHA. – Os nossos pais. Têm medo.
REBECA. – Pomos em perigo o seu pequeno mundo.
NATACHA. – Adulteramos esse mundo até o envenenar.
REBECA. – Têm-nos medo.
NATACHA. – Nós as crianças conseguimos contaminar.
REBECA. - Sabias? Contaminar.
NATACHA. - Que fazes tu para os assustar?
REBECA. - Nada, absolutamente nada.
NATACHA. - Não és como Simão.
REBECA. - Nunca serás como ele.
NATACHA. – Dissemos-te que aprendesses os nomes.
REBECA. – Mas aprendeste os nomes errados.
NATACHA. - Aprendeste mal.
REBECA. - Aprendeste como os outros.
NATACHA. - Pobre Jonas, tanto esforço...
REBECA. - Desperdiçado, totalmente desperdiçado.
NATACHA. - Vamos dar-te uma prenda.
REBECA. - Por tirares boas notas.
NATACHA. – O que te deu a mamã porca?
REBECA. – O que te deu o papá porco?
NATACHA. - Um filho tão bom.
REBECA. – Mereces um prémio.
NATACHA. – As nossas cordas de saltar.
REBECA. - Saltas Jonas?

DOUTOR TAYARA. – Lá estavam elas outra vez, enganchadas na árvore, extáticas, concentradas em cada um dos loucos. Notava-se-lhes cansaço, um profundo mal-estar, uma amargura recôndita. Por instantes tive a impressão que vinham pedir ajuda, que desejavam estar cá dentro. Eu estava mortinho por tê-las nas mãos. Havia qualquer coisa de especial nelas, qualquer coisa de irresistível. O seu transtorno era perfeito, como um diamante. Com toda a verdade morria de desejo por as ter nas minhas mãos. Deixei-lhes uma camisa-de-forças ao pé da árvore.

NATACHA. – De certeza que está a olhar.
REBECA. - Ali, na janela!
NATACHA. - Quer que a gente se vista para ele.
REBECA. – Continua na janela. Não se vai embora.
NATACHA. - Quer ver-nos com a camisa vestida.
REBECA. - Queres ver-nos doce ogre?
NATACHA. - Quer dar-nos outra pele.
REBECA. – Aparece, doce ogre, aparece!
NATACHA. – Quer tudo.
REBECA. – Olha, está a dizer-nos adeus, olá, olá, olá!
NATACHA. – Põe a camisa.
REBECA. - Obrigado, obrigado doce ogre.
NATACHA. – É nosso dever agradar-lhe.
REBECA. – Olha, doce ogre, vou vestir-me para ti.
NATACHA. - Quer saber que aspecto teríamos se...
REBECA. – Estou bonita, doce ogre?
NATACHA. - Se estivéssemos loucas.
REBECA. – Consegues ver-me?
NATACHA. – Sobe à árvore para que ele te veja bem.
REBECA. – Olha para mim, doce ogre, vê-me bem!
NATACHA. - Pareces a minha mãe, a morta, a minha mãe morta.
REBECA. – Está a mandar-me beijos! (Ri)
NATACHA. - Não te rias.
REBECA. – O quê?
NATACHA. - Sofre.
REBECA. - Olha! Está a mostrar-me uma flor. Obrigado doce ogre, é uma flor muito bonita.
NATACHA. - Sofre pela tua filha.
REBECA. - (Para o médico) Mandava-te beijos mas não consigo mexer os braços. NATACHA. - Ela também não conseguia.
REBECA. - (Para o médico) Abraçar-te-ia com muita força mas não consigo mexer os braços.
NATACHA. - Ela também não conseguia.
REBECA. – Não vás doce ogre, não vás!
NATACHA. – Disse-te para sofreres pela tua filhinha!
REBECA. – Ainda não! Doce ogre! Volta!
NATACHA. - Sofre, sofre!

DONA ALOPARDI. – Disfarçavam-se de virgens, levavam-me a dançar, elas faziam de homem e eu de mulher, era um jogo, apenas um jogo. Eu também fazia isso com Simão, foi o que disse às miúdas, fazia isso muitas vezes com Simão. Quando as miúdas regressaram de férias foi divertido.

NATACHA. – Avozinha, avozinha, como gostas mais, avozinha?
REBECA. - Gostas mais por trás?
NATACHA. - Gostas que te metam a língua no cu?
REBECA. – Já experimentaste com animais?
NATACHA. – Engoles ou não engoles?
REBECA. - Masturbação ou penetração?
NATACHA. – Agarra-lhes na piça durante a foda?
REBECA. - Gritas muito?
NATACHA. - Lento ou rápido?
REBECA. - Falas ou gemes?
NATACHA. – Gostas que te chupem as orelhas?
REBECA. – Gostas que te mordam os mamilos?
NATACHA. – Gostas que te magoem?
REBECA. - Gostas que te insultem?
NATACHA. – À canzana?
REBECA. - De pé?
NATACHA. – Por cima ou por baixo?
REBECA. – Lavas-te ou não te lavas?
NATACHA. - Suas ou não suas?
REBECA. – Fodes com as cuecas vestidas?
NATACHA. – Engasgas-te?
REBECA. – Quantas vezes te vens?
NATACHA. – Com o chuveiro?
REBECA. – Com o secador?
NATACHA. – Enfiaste gargalos de garrafa?
REBECA. – Que coisas enfiaste avozinha?
NATACHA. – Chupas-lhes os colhões?
REBECA. – Apertas-lhes as nádegas?
NATACHA. – Arrancas-lhes cabelos?
REBECA. – Gostas que te mijem?
NATACHA. – No fim choras?
REBECA. - Fodes com música?
NATACHA. – Gostas do barulho da cama?
REBECA. - Com a luz acesa ou apagada?
NATACHA. – Pões-lhes a cona na cara?
REBECA. - Gostas que se venham na tua cara?
NATACHA. – Mexes muito a língua avozinha?
REBECA. – Como gostas mais, avozinha?

PROFESSOR KUBELKA. – Foi tudo por culpa da Natacha. Natacha chateou-se porque lhe contei das outras. Disse-lhe que tinha ido procurar outras durante o verão, disse-lhe que não voltasse a abandonar-me. Natacha cuspiu-me. Então vomitei ali mesmo diante dela. Era um homem destruído. Precisava dela, precisava dela, sentia-me incapaz de sobreviver sem sexo. Para mim o sexo é uma bateria. Natacha começou a deitar espuma pela boca e da sua boca saiu uma espécie de grasnados horripilantes.

NATACHA. – Bem sabia, não conseguiste esperar, asquerosa besta dos pântanos, maldita lesma inútil, devias mutilar-te, mutilar-te agora mesmo e passear pelas ruas todas e bater à porta de todas as casas com o teu fétido sexo amputado metido na boca, devias mutilar-te e mastigar esse teu apêndice ensebado e hediondo até o vomitar em sangue.

OLÍVIA. – Os pais de Rebeca morreram num acidente de viação. Demoraria muito a explicar, família no estrangeiro, problemas económicos, tive pena, a verdade é que Rebeca veio viver para nossa casa provisoriamente. Ainda não sabiam nada da minha gravidez. Creio que as miúdas, durante algum tempo, foram felizes, muito felizes de uma maneira desproporcionada.

REBECA. – Obrigado Simão. Finalmente. As minhas súplicas foram ouvidas. Agora posso dedicar-me por inteiro a ti e à minha querida Natacha. Sinto tanto alívio. Nada interrompe agora a minha felicidade. Oh, sim! A minha felicidade!

NATACHA. - (Para Rebeca) Anda!

SEGUNDA PARTE

OLÍVIA. – Apanhei Rebeca a masturbar o meu marido. Desatei a gritar. Natacha veio a correr e acabei por lhes dizer que estava grávida, disse-lhes, nem pensem em tocar-me, esta criança crescerá sã, esta casa vai limpar-se. Deus vai entrar nela e vai enchê-la de anjos, disse-lhes, aquele que vem é verdadeiro, é do meu sangue, sofri demasiado e agora mereço este filho, um filho bom, disse-lhes, vocês são lixo, lixo! Meteis-me nojo. No dia seguinte desapareceram. E começou o horror.

NATACHA. – Sobrevivemos à infância.
REBECA. - Sobrevivemos à infância.
NATACHA. - Está na altura.
REBECA. - Está na altura.
NATACHA. - Agora que pensamos sem limites e sem freio.
REBECA. - Agora que pensamos sem limites e sem freio.
NATACHA. - Agora que ainda não temos idade.
REBECA. - Agora que ainda não temos idade.
NATACHA. - Agora que somos irresponsáveis.
REBECA. - Agora que somos irresponsáveis.
NATACHA. – Temos que seguir os nossos impulsos irracionais.
REBECA. - Temos que seguir os nossos impulsos irracionais.
NATACHA. - Antes que a idade se encarregue de nos dominar e de nos assustar.
REBECA. - Antes que a idade se encarregue de nos dominar e de nos assustar.
NATACHA. - Está na altura.
REBECA. - Está na altura.
NATACHA. – Na altura da perversão.
REBECA. – Na altura da perversão.
NATACHA. - Agora que ainda somos inocentes.
REBECA. - Agora que ainda somos inocentes.
NATACHA. – Temos de escutar aquilo que ninguém escuta.
REBECA. - Temos de escutar aquilo que ninguém escuta.
NATACHA. - Ver a parte invisível do visível.
REBECA. - Ver a parte invisível do visível.
NATACHA. - Somos peregrinas da confusão.
REBECA. - Somos peregrinas da confusão.
NATACHA. - Não queremos ir nem para o céu nem para o inferno.
REBECA. - Não queremos ir nem para o céu nem para o inferno.
NATACHA. - Apenas desejamos mudar de lugar.
REBECA. - Apenas desejamos mudar de lugar.
NATACHA. - Caminhamos atrás do que dobra as espigas.
REBECA. - Caminhamos atrás do que dobra as espigas.
NATACHA. - Estamos preparadas.
REBECA. - Estamos preparadas.
NATACHA. – Acompanha-nos Simão.
REBECA. – Acompanha-nos Simão.

DONA ALOPARDI. – As miúdas vinham para casa e tinham visões. Teria jurado que a voz de Natacha era a voz de Simão. Não sei. Não sei se me estavam a enganar. Não sei se era tudo maldade pura. Como é que uns corpos tão pequenos podiam conter tanta maldade? Tentei suicidar-me duas vezes. Foi Simão quem mo pediu. Ou pediram-me elas. Ou se calhar era eu que já não tinha vontade de viver.

NATACHA. - Estou só.
REBECA. - Não queremos que estejas só Simão.
NATACHA. - Estou só, estou só.
REBECA. - Como é a solidão Simão?
NATACHA. – A minha solidão é húmida.
REBECA. – A tua solidão é a nossa solidão.
NATACHA. - Estou embrulhado em lençóis molhados.
REBECA. - A tua solidão é a nossa solidão.
NATACHA. - Das mãos jorra água fria.
REBECA. - A tua solidão é a nossa solidão.
NATACHA. - Estou só.
REBECA. - Não queremos que estejas só Simão.
NATACHA. - Preciso que venha.
REBECA. - Quem?
NATACHA. - Preciso que esteja comigo.
REBECA. – De quem precisas Simão?
NATACHA. – Preciso dela.
REBECA. - Dela? Precisas dela?
NATACHA. - Sim, dela. Tem de morrer.
REBECA. – A dona Alopardi tem de morrer?
NATACHA. – Preciso dela, preciso dela! Estou só! Tem de morrer.
REBECA. - Queres que ela morra?
NATACHA. - Preciso que ela venha. A minha solidão é imensa.

PROFESSOR KUBELKA. – Lançou-se para cima de mim, Natacha. Puseram-se-lhe os olhos em branco. Fê-lo com a boca, percebe?, com a boca. E os olhos completamente em branco. E caíam-lhe lágrimas dos olhos brancos. Esporrei-me todo na sua cara. Não se limpou. Continuou a chorar e disse uma coisa horrível, horrível, nunca ninguém me tinha feito sofrer tanto.

NATACHA. – Choro pelas outras, pelas meninas que virão depois de mim, por todas essas meninas que sofrerão muito, é preciso, é preciso sacrificar algumas para te destroçar e para te extinguir, maldito professor, para que a fealdade desapareça deste asqueroso mundo. Cuspo em ti.

JONAS. - Estavam pálidas, como se vivessem numa caverna. Não pertenciam ao mundo. Mas eu não lhes tinha medo. Teria feito o que me tivessem pedido. No dia em que fomos ao rio passaram-se coisas incríveis.

REBECA. - Está ali, no rio
NATACHA. - Olhem para o sol que me verão.
REBECA. - Corre, olha para o sol
NATACHA. - Estou, estou...
REBECA. - Não sejas cobarde Jonas, não feches os olhos, olha, olha para o sol, resiste.
NATACHA. – Olhai-me, sou Simão
REBECA. – Olha-o no rio, olha-o. Agora.
JONAS. – Vi-o. E também vi Simão Alopardi caminhando sobre as águas.

DOUTOR TAYARA. – Começaram a fazer discursos à porta do manicómio. Comportavam-se como profetas. Vinham crianças de todos os lados para as ouvir. Cada vez mais. Meu Deus! Quem sabe as torturas a que estavam submetidas aquelas criaturas.

NATACHA. – Escutai, escutai, atenção. Qual é o obstáculo ao sucesso? Um pai cruel, pusilânime, um perdedor? Uma mãe histérica e possessiva? Ou uma mãe ignorante e submissa? Qual é o verdadeiro obstáculo ao sucesso? O que é isso que pensais e não vos atreveis a dizer? O que é isso que vos faz sentir culpados? O que é isso que vos faz rugir durante a noite? O que é isso que vos faz fracassar e vos fará fracassar até ao fim dos vossos dias?

REBECA. – Tendes que pensar sem limites, oh sim, pensar sem limites, sem limites!

NATACHA. – Estamos em vantagem, somos desconhecidos para eles. Não sabem o que fazemos quando fechamos a porta à noite. Pelo contrário, nós sabemos tudo. Eles assustam-vos? E vocês? Que fazeis vós para os assustar?

REBECA. – Há que meter um tigre nos colchões deles, estou-vos a dizer, há que meter um tigre nos seus colchões!

NATACHA. – A dor! A dor é necessária! Sem dor não há ódio. E o ódio é o nosso alimento. Como é a vossa dor? Não, não me respondais, porque não deveis falar da vossa dor, deveis ser a própria dor. Devorados, roídos, disformes, incompletos, como se vos tivesse entrado pela boca uma legião de ratazanas!

REBECA. - Assim vos amamos, oh sim, assim vos amamos, que cada um dos vossos dias seja o melhor dia para morrer!

NATACHA. – Sabeis quem vive do lado de lá do muro? Vive o nosso irmão, vive um louco que vê morrer outro louco, vive um louco que não é parecido com um homem mas sim com outro louco, vive um louco que se dedica à ciência do espírito não para compreender os homens mas para compreender outro louco, vive um louco que não tem o destino de um homem mas sim o destino de outro louco. E eu digo-vos que esse que vive do lado de lá do muro, esse que fornica com a terra fria da sua campa, esse que põe a boca junto ao focinho dos porcos, esse que contrai matrimónio com um osso, esse é nosso irmão, nosso irmão, e sabe tudo sobre a dor. Espreitai!

REBECA. – Espreitai para o lado de lá do muro, espreitai o vosso parente ferido!

NATACHA. – Esse que vedes aí, do lado de lá do muro, sim, esse, o nosso irmão, deve baptizar-nos com o seu mijo, temos de estar debaixo do mijo do louco, temos de estar debaixo do mijo do louco, temos de estar debaixo do mijo do louco para compreender o lugar que ocupam as coisas sobre a terra, nada melhor que o mijo do louco para nos converter em sábios, em não nascidos.

REBECA. - Pela mão do louco caminhamos, oh sim, pela mão do louco até aos corvos no horizonte!

NATACHA. - Escutai, escutai, porque isto é importantíssimo, nascemos do lombo de uma serpente, fomos fecundadas pela nossa própria dor, por um esperma doente e ardente, nascemos do nosso próprio cérebro infectado, da grande vagina do nosso próprio cérebro infectado. Somos filhas da doença, porque a doença é necessária para atingir a lucidez. E pergunto-vos, quem é então o nosso pai, quem é então a nossa mãe?

REBECA. -Usurpadores! Usurpadores da nossa maternidade dolorosa. Usurpadores da nossa paternidade dolorosa.

NATACHA. – Não nos amam, possuem-nos, possuem-nos como aos animais, pior ainda, tentam justificar as suas patéticas vidas connosco, os filhos, digo-vos que não nos amam, simplesmente não querem estar sós, têm medo à solidão, porra, mas nós queremos estar sós, sim, completamente sós, devemos possuir-nos a nós mesmas.

REBECA. -Solidão para os aflitos! Solidão para continuar a sustentar o espírito!

NATACHA. – A solidão. Também é feita de nomes a solidão. Os nomes dos expulsados, dos eliminados, dos desterrados, dos silenciosos. É necessário, é absolutamente necessário ser excluído para produzir em terrenos de liberdade. Se interpretarmos os nossos desejos em exclusão eles serão tão profundos como a pupila dos ogres. Cartas de amor aos ogres, cartas de amor aos ogres, cartas de amor aos ogres...

REBECA. - Cartas de amor aos ogres...

NATACHA. -... só assim conseguiremos dizer tudo aquilo que as pessoas não querem ouvir, fora do correcto, fora dos lugares-comuns, fora da treta, fora, fora, fora, finalmente fora da manada, só assim conseguiremos internar-nos na vida, no verdadeiramente humano, só assim conseguiremos fazer-nos as grandes perguntas, só assim atingiremos a ruptura suficiente, acederemos à demanda íntima de cada espírito, compreenderemos a dor. A solidão é o espaço do conflito, aí onde amamos a nossa carne mas nos separamos dela, governados pelas pulsões, adoramos o pensamento dos mudos, sentimos um fundo respeito pelo perigo, polimos o equilíbrio do terror, meditamos os actos de advertência e então exclamamos Assombro, assombro!

REBECA. - Assombro no avesso da consciência, assombro perante o mistério omnipresente!

NATACHA. - Assombro, assombro! Aos surdos devia bastar-lhes ver e aos cegos ouvir, essa é a forma, essa é a forma que procuramos. A forma que procuramos, a forma, a forma, sim, essa é a forma que procuramos, que procuramos, essa é a forma que procuramos. Contra a mansidão, contra a ignorância, contra a compaixão, contra a caridade.

REBECA. - Aos surdos devia bastar-lhes ver e aos cegos ouvir!

NATACHA. - E agora ide para casa e aprendei o nome de todas as coisas porque nos nomes encontra-se o significado do mundo. Os nomes das coisas são necessários para nos suportarmos a nós mesmos, porque nos odiamos a nós mesmos! Foi isso que os usurpadores conseguiram, isso, que nos odiássemos a nós mesmos! Rogo-vos que aprendais o nome de todas as coisas porque inventareis o indizível. E só no indizível encontrareis a verdade. E acima de tudo não vos equivoqueis nos nomes, não vos equivoqueis ou estareis condenados para sempre.

REBECA. - Pensai em Simão, não deixeis de pensar em Simão. Estou cansada. Muito cansada. Porque mentimos tanto?

NATACHA. – Tenho de me apressar. Rebeca é débil, mais débil do que eu pensava. Depressa, depressa. Não há tempo a perder.

NATACHA. - Não me amas?
REBECA. - Estou cansada.
NATACHA. - Agora não podemos estar cansadas.
REBECA. - Quero ser como os outros.
NATACHA. - Não podemos ser como os outros.
REBECA. - Quero dormir durante a noite.
NATACHA. - Não é altura para isso, não podemos dormir.
REBECA. - Quero sair desta cidade.
NATACHA. - Depois.
REBECA. - Quero conhecer outras cidades.
NATACHA. - Depois, prometo-te, depois.
REBECA. - Quero ser como os outros.
NATACHA. - És melhor que os outros.
REBECA. - Não quero ser melhor.
NATACHA. – É a tua obrigação.
REBECA. - Não me suporto.
NATACHA. – Isso é bom. Não nos suportamos a nós mesmas, assim conseguiremos encontrar a verdadeira Rebeca, a verdadeira Natacha, a Rebeca e a Natacha que suportaremos.
REBECA. – Sinto-me mal.
NATACHA. - É necessário sentirmo-nos mal.
REBECA. - Quero dormir.
NATACHA. - No podemos dormir.
REBECA. - Quero dormir.
NATACHA. - Não me amas?
REBECA. – Amo-te.
NATACHA. - Não me amas, não me amas!
REBECA. – Amo-te.
NATACHA. - Eu amo-te com todas as minhas forças.
REBECA. - Amo, amo-te.
NATACHA. - Se me amasses...
REBECA. – Deixa-me descansar.
NATACHA. - Agora não podemos descansar. Não podemos. Depois, depois.
REBECA. - Quero dormir.
NATACHA. - Temos que pensar.
REBECA. - Não quero pensar.
NATACHA. - Já não te lembras do dia do enterro de Simão? Já não te lembras como começou?
REBECA. - Não é como no princípio.
NATACHA. - Agora é melhor, muito melhor. Estamos preparadas.
REBECA. - Eu não estou preparada.
NATACHA. – Ama-me e estarás preparada.
REBECA. - Quero dormir.
NATACHA. - Será que não me amas?
REBECA. - Quero dormir.
NATACHA. – Diz-me a verdade, deixaste de amar-me? Não adormeças! Fala! Não durmas!

OLÍVIA. - De repente um dia ficaram caladas, quietas. Não faziam o mais pequeno barulho. Quando folheavam as páginas de um livro faziam-no de tal modo que parecia que o livro não existia. Estávamos aterrorizados.

PROFESSOR KUBELKA. – O que elas fizeram não me surpreendeu, absolutamente nada, eram demasiado inteligentes. Oh, meu Deus!, quero voltar a ser como antes, como antes de Natacha. Antes, antes, antes... Agora preciso das meninas, de todas as meninas, perto de mim. É um desejo insuportável.

DOUTOR TAYARA. – Depois do que aconteceu abandonei o hospital, abandonei a minha profissão. Não me sentia capaz de continuar a fingir que ajudava as pessoas a serem felizes. Que merda é essa da felicidade?

DONA ALOPARDI. – Às vezes sinto-me culpada. Simão fez bem em matar os pais, foi o que eu disse às miúdas, não vou dizer que não. A verdade é que tenho vontade de que tudo acabe para mim, tenho verdadeiro desejo de morrer. Simão está muito sozinho. Só consigo pensar na morte.

JONAS. – Continuo apaixonado por elas. Amo-as. Amo-as. Amá-las-ei sempre. Não quero saber do que fizeram. Agora sei o nome de todas as coisas. Agora posso utilizar as palavras como jamais pensei que o poderia fazer, agora posso dizer às pessoas o quanto amei Natacha e Rebeca. E aposto o que quer que seja que qualquer dia odiarei tanto alguém que me voltará a crescer o braço.

FINAL

OLÍVIA. – Fiz-me de morta. Fiquei o mais quieta que pude enquanto Natacha me dava pancadinhas na barriga. Pensou que eu estava completamente morta e pegou no martelo. Urinei-me. Ela achou piada que eu urinasse depois de morta. Disse a Rebeca, olha, está a mijar-se de medo depois de morta, o inferno deve ser um sítio horrível. Nunca esquecerei essas palavras. Mas Rebeca não a ouvia, Rebeca estava em cima do meu marido esfaqueando-o repetidamente, sem parar, sem parar, sem parar. A faca entrou e saiu do corpo cento e quatro vezes. Era uma bola de sangue sobre o tapete. Encontraram-nas em frente ao muro do manicómio. Rebeca com a cabeça esmagada por uma pedra. Natacha enforcada na árvore. Antes de se enforcar, Natacha tinha escrito no chão o nome da sua mãe, da sua mãe verdadeira e, ao lado, mamã...

NATACHA. – Eu não sou assim, mamã. Gosto muito de ti.
(tradução: alberto augusto miranda)


Ele É

Quem é vivo sempre aparece.” – Uma frase feita como tantas outras, mas que sempre nos dão jeito. Guardo esta para um próximo tempo de silêncio dEle.

Se cremos, e, se de facto já O experimentámos Vivo em nós, para que nos inquietarmos, permitindo que a angústia nos invada nesses momentos? Não nos ausentemos nós. Não nos afastemos, mas antes, Lhe prestemos maior atenção, mais firmes e atentos aos sinais que virão. Que antes se aproveite o tempo para provar-Lhe que cremos e O queremos.

É o tempo em que entre namorados, surgem as mensagens mais ardentes; os longos e tristes, mas também os mais apaixonados poemas de amor.
Salmodiemos e vamos esperar, preparar-Lhe espaço – adorná-lo, dando-Lhe a chance de que por fim volte e nos surpreenda, tão mais inflamado que nós.

Ele É. Ele Vive. Que sempre reine nos nossos pobres corações, que embora assim, sejam sempre ricos de amor e fé .

Vem Senhor Jesus!


FALA QUE EU TE CHUPO

Caro Mastro Chamborci (sic) acompanho seu programa desde menina, aliás aqui em casa, sempre admiramos muito seu talento e beleza.

Lembro quando vc tinha seu programa na TV e no final cantava aquela música "Fodinhas de Domingo". Pois é, me lembro bem que você dançava e dava para perceber o volume da sua tromba, aquilo deixava eu e minhas irmãs com a macaca, até minha mãe depois confessou que nunca tinha visto homem mais bonito... Ai se papai soubesse!

Mas pior era minha avô... Uma vez, escutamos gemidos no quarto dela, achamos que a veía estava passando mal, mas ao entrarmos vimos que ela estava roçando um abacaxi inteiro na buceta pelancuda enquanto na outra mão segurava a capa de um LP seu.
A megera nem se importou com nossa presença, deu suas gozadas ali mesmo e se justificou que treparia com o Maestro Chamborci no meio do Maracanã com jogo em andamento e tudo.

Ela nem ligava, na hora do seu programa ela mandava ver o dedo na xavasca enquanto levava os próprios peitos na boca e chupava, estava nem aí para visitas.
Acredita que acabou estragando a capa dos discos de tanto esfregar na buceta?

Bom, mas vamos ao meu problema.

Eu sempre me guardei para o casamento. Meu sonho sempe foi casar de branco e perder a virgindade na noite de núpcias com um homem lindo.
Ele me tomaria nos braços e seria gentil comigo, então eu me entregaria ao amor. Sonhava com isso desde menina.

Para o senhor entender melhor, eu dava o cu mas não dava a buceta, correto?

Daí eu comecei a namorar um rapaz que depois se tormou meu marido, o Brasilino.

Bom, na verdade o Brasilino nunca foi bonito, aliás, se for ver bem, ele é feio para caralho! Mas o que me chamava atenção é que ele tinha mão enormes e eu sonhava que ele devia ter um pintão!
Porra, aquela mão toda era para pegar melhor o jebão que eu sonhava que ele tinha.

Eu pensava, esse filhodaputa é feio demais, ele deve bater uma punheta lascada, daí essa mão toda é para pegar no caralhão! Deus sabe o que faz, afinal!

Eu não aguentava mais de vontade do Brasilino, mas eu acreditava no casamento. E assim me guardei, sonhando toda noite com aquela pica de jegue.

Até que finalmente me casei.

Não me cabia de felicidade! Eu teria aquela mangueira só para mim! E finalmente, naquela noite de amor e desejo sem fim, eu iria me entregar.

Tudo estava correndo perfeitamente.
Chegamos da festa e fomos direto para a cama, daí o Brasilino falou que ia cagar e que quando voltasse queria eu pronta porque ele não era de brincadeiras! Bom, nem preciso dizer que fiquei doida com essa!
afinal, gosto de home
ns que sabem o que querem!!

Apoiei uma perna no puxador do guarda-roupa e outra na penteadeira, me abri mesmo por que pensei; Agora vai vir uma pica que não tem tamanho, talvez o Brasilino tenha que ficar no banheiro mesmo, já que o quarto era pequeno.

Então ele veio, colocou uma meia na cabeça, por que ele sempre odiou desarrumar o cabelo e vestindo um roupão de banho. Mas me pegou até de surpresa, porque o filhodaputa não deu descarga.

E para minha surpresa... Oh Deus!!!


Ele tinha um pintinho de merda!!
Não era muito maior que um dedo mindinho! Até achei que ele estava de costa, e aquilo fosse alguma hemorroída, mas não, aquilo era o pinto dele. O pinto do meu marido!!

Pior que eu comecei a chorar de desgosto e decepção, mas o desgraçado achou que eu estava com medo da pica dele! Ele dizia, não faz manha que agora você vai entrar na vara!!! E eu pensava; QUEM ME DERA!!!

O filhodaputa com aquele merdinha que nem entrava, nem fazia cocegas, nem porra nenhuma e ainda gritava; "Casou comigo agora aguenta! Agora você vai conhecer o que um homem com desejo!!"
E eu chorava; Conhecer um homem? Será que ele trouxe algum amigo e deixou debaixo da cama?

Bom, eu sei que esse martírio já dura quatro anos. Toda noite eu choro de desgosto e o corno acha que faço isso de medo do deditos dele.

O problema é que venho de famíla séria e muito religiosa, então não posso me separar! Deus sabe o que eu sofro!!

Não sei o que fazer, estou seriamente pensando em arrumar um bichinho de estimação para suprir o pesadelo que estou vivendo! Um animalzinho para poder passar o dia comigo e me fazer voltar a ter alegria de viver. Estou pensando em um cavalo.

Mas ao mesmo tempo não sei se falo para o Brasilino que ele tem um pintinho ridiculo e que deve procurar tratamento, afinal ele foi criado pela avô e sempre foi muito dedicado ao trabalho, acho que nunca viu um pinto normal nem em foto.

Estou pensando em mostrar um filme de foda para ele, mas tenho medo que o filhodaputa fique doente ou se mate, daí EU que vou ter que trabalhar.

Mas ao mesmo tempo, não aguento mais o sacana achando que tá me impalando com aquele rabinho de lagartixa.


Enfim, devo me preocupar?


Joelsina Aparecida Cosme
Pica Grande do Norte_ SE


*Estou mandando uma fotinho do meu casamento_ momentos antes da tragédia....








Cara amiga Joelsina, lendo sua extensa carta _ aliás vai tomarnocu, podia ser mais breve _ Cheguei a conclusão que sua decepção foi muito grande.
Durante todo seu relato pude notar que você teve uma criação muito rígida e tradicional, isso é notório na sua maneira de se expressar. Dessa forma, privada de mais liberdade, você acabou criando uma fantasia.

E nessa sua fantasia de menina, a realidade se mostrou muito dura. O tão sonhado marido se tornou um pesadelo. Aliás um drama de centenas de mulheres que se entregam cegamente a um devaneio sem base nenhuma na coerência e no que é correto.

Falando mais claramente, arruma um negrão, uma roda de samba, uma torcida organizada, uma porra qualquer para compensar esses anos todos, mas dá de quatro que você é feia para caralho!

Quanto a seu marido, arruma o cavalo para comer o cu dele. Capaz dele, não só conhecer o que é pinto, como até gostar.
Ter decepções na vida é normal, o que não pode é deixar a buça vazia pedindo por uma jeba de verdade, ok?






RECEITA (QUASE) CULINÁRIA.... DE AMOR!!!!

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AMAR, SER AMADO E SER FELIZ...
UMA QUENTE RECEITA!!!!!!!!

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Ingredientes:
Um pouquinho de carinho,

uma leve coçadinha,
uma fungadinha bem morna,
uma piscadela malandra,

um abraço misturado com ternura,
uns tapinhas amorosos,
Um suave aperto de mão,

uma porçãozinha de massagem,
um beijinho de mel,

uma pitadinha de olhares
e uma frase com três palavras.


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Modo de Preparo:
Chame aquele ALGUÉM que você tanto quer, para ele "sentir" a mistura dos
ingredientes.
Despeje no coração dele um pouquinho de CARINHO, na cabeça a pequena
COÇADINHA,
na nuca a FUNGADINHA bem morna, e junte isso à PISCADA malandra.
Lembre-se do suave APERTO DE MÃO e, em seguida, adicione o ABRAÇO já bem misturadinho com TERNURA, e vá dando carinhosos TAPINHAS nas costas.
Depois adicione a porçãozinha de MASSAGEM, acompanhada do BEIJINHO DE MEL.
Por último, espalhe aquela pitadinha de OLHARES e, com tudo já quase pronto, deixe escorrer a frase de três palavras:
"EU AMO VOCÊ!!"

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Leve tudo ao forno da COMPREENSÃO, entre nele também junto com seu "ALGUÉM" e feche a porta por dentro, deixando aquecer eternamente.
O FOGO deverá manter-se alto, e a fumaça deverá ganhar a forma da palavra

A M O R por onde pairar.
DICA IMPORTANTE:

QUEM USAR ESSA RECEITA, VAI GOSTAR E PEDIR BIS:
É A RECEITA PARA AMAR, SER AMADO E SER FELIZ!!!!!
(SILVIA SCHMIDT)

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E PARA O PÓS RECEITA DE AMOR, SÓ MESMO MOUSSE DE CHOCOLATE
BEM FÁCIL, PARA SABOREAR A DOIS!! QUE TAL!!
SEJA MUITO FELIZ O QUANTO PUDER, VOCÊ MERECE!!

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Mousse Maravilha de Chocolate
INGREDIENTES
(Receita Original do Amor aos Pedaços)
3 ovos
1 pote de margarina de 250 g (SEM SAL)
1 copo americano de chocolate em pó(o melhor é cacau em pó)
1 lata creme de leite
Atenção: açúcar utilizar o pote de margarina de 250 g – não encher até a boca
MODO DE PREPARO
Coloque na batedeira as 3 gemas, a margarina e o açúcar – bata por 15 minutos na velocidade máxima – até ficar branco. Adicione o copo de chocolate e bata até misturar.Após este processo coloque o creme de leite com soro e misture (não é para bater só misturar); - RESERVE.

Agora bata as claras em neve até ficarem durinhas, MISTURE com os outros ingredientes (a reserva) DELICADAMENTE.
NÃO PODE BATER – MISTURE DELICADAMENTE.
Levar para a geladeira (Não colocar no freezer).

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breve ensaio sobre a solidão


os estilhaços da paixão magoam mais que os dardos de Cupido. onde é que eu já li isto? que me lembre em lado nenhum, veio-me agora ao pensamento.
quanto mais nos nomadizamos mais interiormente ficamos sedentários. idem, ibidem.

se calhar isto seria um bom começo de ensaio, daqui discorria-se e citava-se, floreava-se, titula-se em mui nobre parangona e põe-se assinatura no fim. ensaio sobre a correlação entre as paixões e as solidões, a sempr'eterna dicotomia humana que, não prescindindo do fogo dos sentimentos resguarda o couro e o cofre das investidas predadoras. predadoras, interrogai-vos? sim, digo: a paixão é predadora, saliva por 'possuir' o bem-amado, é algoz de silêncios e recatos, independências.

o céptico enquanto jovem amou e desejou, perseguiu e cortejou, iniciado nas artes de galanteria fez as rimas mais incríveis para, à guiza de prémio mor, obter atenções e correspondências, sacrifica o seu mundo em nome da mítica 'paixão', droga dura dos sentimentos. em desagravo obtém felicidades que os tempos mostram perenes, risos e estertores que, momentos, só isso duram e na memória fenecem pois ela lembra é dos estilhaços, da implosão íntima de ícones e o longo suspiro pelo estado antes da arte, a saudosa, preciosa, almejada solidão. paixão é dependência e aos cliques de descavilhar de granadas não há heróis ou heroínas, há que buscar nos salvados os restos do Eu, correr cortinas sobre o mundo. a solo.

heis, em crueza e em tosco, retrato de cenário após a fim das ilusões. esta é conhecida, não tem autor além da sapiência das gerações que a repetem desde que os olhos se perdem no horizonte, reclamando eremitismos que o protejam das desilusões: cada Homem é uma ilha. nem atol de lindos corais ou arquipélago de radiosas praias: apenas ilha. a sua. somos sócios do Club Med por falta de fundos e, pudéssemos, comprávamos viagem para ilhas longuínquas, sós. no farnel mais que o prático pois há mais coisas indispensáveis, há silêncios e há momentos, aos mais feridos há o lamber delas, chagas que os estilhaços abrem. falo do amor em versão paixão, mas falaria pelas mesmas palavras de qualquer recanto no mundo além cortinas, do formigar e dos carreiros, em olhos abonados de desilusões. tantos. ardendo em saudade da solidão, vigiando torniquetes onde mais sangrou e, os olhos, sempre esses temerosos da dor.

reclama-se o idílico nas vidas espreitadas em décor. não acreditando nas páginas policromáticas de felicidades imensas, mas invejando-as sempre um pouco, tapa-buracos de solidões. ardendo, no tal fogo lento que arde sem se ver, dizia Camões, poeta que se hoje vivesse se suicidaria. os sorrisos que não temos e, quando em transe e julgando tê-los, foram esgar foram dor: as cicatrizes contam do mapa que os estilhaços desenharam, também das compresas e das cortinas, do placebo de mentir acreditando nas páginas de felicidade alheia, qu'as paixões vêm com rótulo de eternas e, desta vez, na sua composição não haverá anabolizantes que façam mal à saúde, ao Viver. sem corantes nem conservantes, desta vez é que é e não será mais um sonho de plásticos, pfff quando fura e acaba, dardos, torpedos, granadas que explodem no silvo da sua morte. Ilusões.

todo os dias há um barco que parte, e todos os dias procuramos o seu cais. nunca o vemos mas ouve-se o apito quando passa e, em baque, olhamos para o lado para ver se há mais passageiros em terra, se da coincidência de busca de cruzeiros para míticos arquipélagos não há ilhas que se juntem, namorem. que vagueiem nos oceanos dando costa a costa, as areias molhadas e misturadas, o perfeito postal ilustrado. semeiam-se carências e espera-se que nasçam palmeiras, dóiem os olhos quando o recordam no após, na pradaria do silêncio onde correm os que fogem aos predadores e, também, o velocista que temos quando "os estilhaços da paixão dóiem mais que os dardos de Cupido", coisas assim.

a solidão não é auto-suficiente. agiganta-se em temores e rema-se, rema-se para alcançar o porto, aquele donde sai o barco que deixa sinal sonoro e desperta do clorofórmio que se inala. há sempre movimentos de remos, círculos nas águas em volta de nós: boía-se em lagos de imaginação, ricos em contos de fadas e outras adrenalinas mais abastardadas, mexem-se os remos com vagarosas braçadas de esperança: não morri, afinal; os combates perdidos não mataram o gosto à modalidade e, podendo, farnel às costas e adieu Club Med. longe, na ilha mítica, a Solidão.

em final: digavando ao deus-dará cheguei a isto. uma rotunda. tantos caminhos diferentes que partem dum porto só, tantas as teias que se cruzam quando os temas escavam os cantos e descobrem os metais dourados cheios de pó ou, às vezes, verdete e sarro em crostas. servir duas senhoras antagónicas é complicado, paixão e solidão ainda mais. pessoalmente divido-me em acessos de carências afectivas sempre por saciar e longos roncos de silêncio olhando o horizonte da solidão, a tal idílica. o meu pensamento seguiu diversos rumos, espreitou as saídas da rotunda, divaguei. deseremitei-me, vim à vila buscar mantimentos e sentei-me a dois dedos de conversa. hoje de solidões, à próxima em ilusões. para equilibrar.
carlos gil


Panic! At the country.

O Presidente do Conselho de Ministros em exercício, Eng.º [?] José Sócrates Pinto de Sousa, concedeu uma entrevista à SIC. Em amor à camisola, o jornalista Ricardo Costa interrompeu as suas férias e o seu dia de aniversário para, juntamente com outro jornalista, entrevistar o Presidente do Conselho.

O Presidente do Conselho parecia bem disposto e estava bem apresentado...

... mas passemos ao que interessa.

O Presidente do Conselho nada disse [e não foi questionado nesse sentido] sobre a sua formação académica. Continuamos sem saber o desfecho do caso 'Independente'.

Ficámos a saber que há mais X portugueses com 'médico de família', como se isso quisesse dizer alguma coisa de relevante sobre o sistema nacional de saúde. Interessa sim taxas moderadoras 'moderadas' e qualidade de serviço ímpar. Com ou sem marketing de 'médicos de família', a fazer lembrar uma série televisiva.

Impostos, não se sabe o que vai acontecer.

Aeroporto
, o discurso do costume, em novidades.

TGV, nada.

Vaias, alguma coisa. E foi adorável a referência aos meninos a receber 30 Euros em casting para assistir a uma conferencia do PM... sem vaiar.

Défice
, o discurso habitual, com referência ao não aproveitamento de uma excepção como França, que irá beneficiar de mais tempo para corrigir o seu défice com calma.

Entendemos a posição do Presidente do Conselho: tem a perfeita noção de que, quando se justifica tudo a todos com o argumento das finanças públicas -- a fazer lembrar alguns seus antecessores, também eles do campo, como frisou Ricardo Costa -- nada resta.

E por isso, para justificar o que se desfaz e o que não se faz, Portugal continua com a sua meta de défice, não aproveitando a abertura que teria, e cujo precedente foi aberto por França.

Se Sarkozy já era mau...


Ana Guiomar e Diogo Valsassina

Aos 18 anos, Ana Guiomar já não é mais a menina que se tornou popular na série ‘Morangos com Açúcar’. Mais madura, a actriz falou ao Correio Vidas sobre a história de amor com o namorado, nos bastidores da mediática série da TVI, da vida em Lisboa e dos sonhos para o dia em que será muito rica, dona de um iate e de uma casa com 30 guarda-roupas.

Correio Vidas – Está em cena com a peça ‘Confissões de Adolescente’. Aos 18 anos, ainda se sente uma jovem rebelde?

Ana Guiomar – Pelo contrário, sempre fui calminha, nunca passei por aquelas rebeldias de fumar cigarros atrás do pavilhão, nem tive namorados na escola. Era muito caladinha e só era mais calona para estudar. Se calhar perdi um bocadinho com isso. Tenho o 12.º ano por completar, mas é uma coisa que quero fazer já para o ano. Mas agora vou descansar.

– Acabou as gravações da série da RTP 1 ‘Conta-me como Foi’. Vai de férias?

– Vou tentar ir a Barcelona com uma amiga, e depois vou ficar por cá a fazer praia, que é uma coisa que não dispenso. Também estou a pensar ir à Holanda. O meu ex-padrasto vive lá, e até já tenho um quartinho meu em casa dele.

– E com o namorado [o actor Diogo Valsassina], não vai tirar uns dias?

– Infelizmente, não vai dar. O Diogo está a gravar a ‘Ilha dos Amores’ e não posso ir de férias com ele, mas vamos aproveitando os fins-de-semana em comum para fazer qualquer coisa diferente.

– A vossa história é engraçada, conheceram-se nos ‘Morangos’, onde faziam um par romântico. Foi amor à primeira vista?

– Não foi nada amor à primeira vista. Para mim, ele era um colega absolutamente normal. Com o tempo é que nos fomos aproximando, talvez por causa da idade. E, depois, fazermos de par romântico foi uma benesse que a produção nos deu. Nessa altura já namorávamos.

– Pensa que é para a vida?

– Claro que quando uma pessoa está apaixonada diz que sim, que é o amor da nossa vida, mas se não for vai ser um grande amor da minha vida. Mas não penso muito nisso, sou muito nova. Ainda não penso em casar e ter filhos, mas adorava ter 80 anos e a casa cheia de filhos e netos.

– Como é a vossa relação?

– Temos uma relação engraçada, cumprimos as funções de namorados, mas somos amigos e um bocadinho irmãos. Sinto que estamos a crescer juntos.

– Até há pouco tempo vivia em Torres Vedras. Como foi a mudança para Lisboa?

– Já precisava de mudar. Como não tinha carta de condução, passava a vida a apanhar o autocarro para Lisboa. A adaptação não foi nada complicada. Desde pequena que sempre fiz tudo sozinha, por isso, para mim, sair de casa foi fácil, e até gosto das tarefas domésticas, de passar a ferro e de cozinhar.

– A participação nos ‘Morangos’, e depois na novela ‘Tempo de Viver’, deu-lhe alguma independência financeira. O que comprou com o primeiro ordenado?

– Foi a minha cabina de hidromassagem. Entrei numa loja, nem sabia que aquilo existia, mas quis logo levar. Ainda hoje funciona muito bem.

– Como foi passar da Ana Guiomar anónima para uma pessoa que toda a gente conhece?

– Nunca senti muito aquela coisa do ‘ai, não posso sair à rua’, mas também porque morava em Torres Vedras. A minha vida era gravar e apanhar o autocarro do Campo Grande para casa. Continuei a fazer uma vida normal.

– Até onde quer chegar na carreira? O que sonha para o futuro?

– Não faltar trabalho já é muito bom, mas quero fazer de tudo, desde a boazinha à vilã. Claro que sonho em ser muito rica, ter um iate e uma casa com 30 guarda-roupas, mas não faço grandes planos.

REFLEXO

Correio Vidas – O que vê quando se olha ao espelho?

Ana Guiomar – Olho-me ao espelho quando acabo de tomar banho, portanto vejo-me lavadinha. Acho que é importante olharmo--nos ao espelho mas numa perspectiva menos física e não naquela do ‘ai, meu Deus, sou tão bonita!’.

– Gosta do que vê?

– Com 18 anos, se não gostasse daquilo que vejo, acho que quando tivesse 30 ia ser uma depressão. Sempre fui muito insegura, mas mais naquela fase da escola. Hoje em dia já não sou assim.

– Nunca lhe apeteceu partir o espelho?

– Não, até porque há a superstição de que partir um espelho é equivalente a sete anos de azar.

– Antes de sair de casa vê-se sempre ao espelho?
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